Como garantir que o capitalismo continue servindo às pessoas, e não o contrário?

Como garantir que o capitalismo continue servindo às pessoas, e não o contrário?

O capitalismo que conhecemos sempre concentrou riqueza; o que começa a chamar atenção agora é a concentração simultânea de riqueza, infraestrutura, tecnologia, informação e influência política

Elon Musk tornou-se o primeiro homem da história a ultrapassar, ainda que temporariamente, a marca de US$ 1 trilhão em patrimônio. Dono de uma personalidade tão ousada quanto controversa, suas posições políticas e o poder que concentra passaram a despertar preocupação em governos, analistas – e a imprensa mundial tem repercutido. Mas a verdadeira questão não é Elon Musk. Ele é apenas o personagem.

A verdadeira história é outra. O que devemos entender é se estamos frente a um novo tipo de capitalismo que tornou possível o surgimento de alguém como ele. Ao longo da história, o capitalismo sempre produziu empresários extraordinários. John Rockefeller dominou o petróleo. J.P. Morgan reorganizou o sistema financeiro americano. Henry Ford revolucionou a produção industrial. Steve Jobs redefiniu a relação das pessoas com a tecnologia. Cada um deles simbolizou uma etapa do desenvolvimento econômico.

Elon Musk, certamente, pode ser incluído nessa galeria. Mas existe uma diferença importante. Seus antecessores construíram impérios em setores específicos da economia. Acreditávamos que o sucesso de uma empresa dependia da qualidade de seus produtos. Hoje, o valor parece estar menos no produto e mais no ecossistema capaz de conectar vários mercados ao mesmo tempo. Nitidamente, Musk está construindo um ecossistema no qual diferentes mercados passam a se reforçar mutuamente. Seus foguetes colocam satélites em órbita; os satélites conectam usuários; a inteligência artificial utiliza esses dados; os robôs incorporam essa inteligência; os veículos elétricos tornam-se plataformas computacionais.

Já não se trata apenas de liderar um setor. Trata-se de conectar vários deles em uma única arquitetura tecnológica. O capitalismo que conhecemos sempre concentrou riqueza. O que começa a chamar atenção agora é a concentração simultânea de riqueza, infraestrutura, tecnologia, informação e influência política. Não estamos discutindo apenas um empresário ousado. Estamos tentando compreender se surgiu uma nova forma de organização do próprio capitalismo. Quando um ecossistema fica grande demais, ele deixa de ser apenas uma vantagem competitiva e passa a ser uma forma de concentração de poder econômico.

Todo grande salto do capitalismo tornou a humanidade mais rica. Mas isso não a tornou mais livre. Há 135 anos, Leão 13 perguntava como preservar a dignidade humana diante das fábricas da Revolução Industrial. Hoje, Leão 14 faz praticamente a mesma pergunta diante da inteligência artificial, dos algoritmos e da concentração do poder tecnológico. Mudaram as máquinas. A pergunta continua sendo a mesma: como garantir que o capitalismo continue servindo às pessoas, e não o contrário?