Conheça o ativo que bate recorde no Brasil e já movimenta mais que ações de Vale e Petrobras

Conheça o ativo que bate recorde no Brasil e já movimenta mais que ações de Vale e Petrobras

Crescimento das negociações ocorre em meio ao avanço da regulação do Banco Central

O que deu errado com o bitcoin? Cripto perde metade do valor após máxima histórica

Principal moeda digital do mundo enfrenta dúvidas sobre seu papel como reserva de valor, mas analistas ainda enxergam recuperação. Crédito: TV Estadão

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As stablecoins dolarizadas — também conhecidas como “dólar digital” — caíram no gosto popular dos brasileiros. Somente no mês de julho, as negociações desses ativos digitais alcançaram a marca dos R$ 27 bilhões, segundo dados da plataforma Biscoint.

Trata-se do maior volume registrado pela empresa desde o início da série histórica, em 2024. O montante supera até mesmo o volume negociado de ações de gigantes da Bolsa de Valores, como Petrobras (PETR3;PETR4) e Vale (VALE3).

O levantamento considera as negociações de USDT, maior stablecoin do mercado, emitida pela Tether, e de USDC, stablecoin emitida pela Circle.

Segundo dados da Elos Ayta, enviados ao E-Investidor, os investidores brasileiros movimentaram R$ 23,78 bilhões em ações da estatal e R$ 22,67 bilhões em papéis da mineradora durante o mesmo período. Embora estejam relacionados a classes de ativos diferentes, os números ajudam a dimensionar a relevância que essas moedas digitais têm conquistado no mercado financeiro brasileiro.

O que são stablecoins?

Para quem não está familiarizado com o assunto, vale uma introdução para entender a dinâmica dessa criptomoeda. As stablecoins são moedas digitais que buscam manter seu valor igual ao de uma moeda fiduciária, como o dólar e o real. Além disso, carregam a tecnologia necessária para reduzir o tempo e o custo das operações transfronteiriças.

Ou seja, por meio da rede blockchain sistema em que as transações de criptomoedas são registradas –, as pessoas ou empresas podem realizar operações financeiras para qualquer lugar do mundo em tempo real.

As vantagens ajudaram na popularização desta classe de ativos digitais em um período de depreciação do bitcoin (BTC) e refletem uma mudança no perfil dos usuários. Segundo dados da Receita Federal, as stablecoins responderam por mais de 70% de todo o volume declarado de criptoativos no Brasil entre agosto de 2019 e dezembro de 2025.

“As stablecoins resolvem uma das principais dores do mercado financeiro: os pagamentos internacionais. Hoje, esse tipo de transação ainda envolve burocracia, pode levar dias para ser concluído e, muitas vezes, tem custos elevados”, destaca Sarah Uska, Analista de criptoativos.

Como mostramos nesta reportagem, apenas 54,6% dos pagamentos internacionais são creditados em até uma hora após a confirmação. Já o custo médio das transações internacionais entre empresas permanece em torno de 1,6%, enquanto entre pessoas físicas salta para 2,6%, segundo os dados do relatório do Conselho de Estabilidade Financeira (FSB, na sigla em inglês), órgão internacional que monitora e faz recomendações sobre o sistema financeiro global.

As stablecoins também ganharam notoriedade no Brasil após a alteração da alíquota do Imposto sobre as Operações Financeiras (IOF), em maio do ano passado. Com a alíquota unificada em 3,5% para a maioria das operações de câmbio, os brasileiros encontraram nessas criptomoedas uma alternativa para driblar o pagamento do imposto em transações internacionais. A possibilidade ajudou ainda a popularizar lançamentos de cartões de crédito baseado em stablecoins.

USDT, a stablecoin tether, representa mais de 80% do fluxo cripto no Brasil. Foto: AdobeStock 

Stablecoins estão na mira do Banco Central

A popularização das stablecoins levou o Banco Central (BC) a ampliar a atenção sobre essa classe de ativos. Na resolução do BC de nº 521, publicada no fim do ano passado, a autoridade monetária determinou que, para fins de divulgação de informações, algumas transações com ativos virtuais serão tratadas como operações de câmbio – entre elas, a compra, venda ou troca de stablecoins. A nova regra entrou em vigor em fevereiro de 2026.

A norma, no entanto, abriu brecha regulatória para uma eventual cobrança de IOF sobre operações com stablecoins. Em março, o governo chegou a estudar a abertura de uma consulta pública para avaliar a incidência do tributo sobre esses criptoativos, mas desistiu da iniciativa.

A possibilidade, porém, enfrenta forte resistência do setor que enxerga o enquadramento como inadequado à natureza do ativo. “As stablecoins são, em sua essência, criptoativos e, portanto, deveriam ser enquadradas como tal, e não como operações tradicionais de câmbio”, ressalta Israel Buzaym, country manager da KAST no Brasil

Já no fim de junho, o Banco Central propôs criar uma medida em que instituições financeiras e corretoras retenham, por até 24 horas, transferências de stablecoins para carteiras de autocustódia ou para o exterior. A futura norma se aplicaria apenas às operações a partir de US$ 10 mil.

Segundo a proposta apresentada para associações que representam empresas de criptoativos, o prazo permitiria a verificação de informações relacionadas à prevenção à lavagem de dinheiro e ao combate ao financiamento do terrorismo.

Procurado, o BC não se manifestou sobre o assunto.

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Para John Delaney, o uso de stablecoins será necessário para operações internacionais como, por exemplo, aquelas efetuadas por agentes de IA.

Na avaliação de Diego Martins, sócio da BLOXtrade, o recurso retira a principal característica da stablecoin: a liquidação em tempo real. Ele acrescenta ainda que, antes do dinheiro entrar no ecossistema digital, os recursos já foram submetidos às diligências do sistema bancário tradicional.

“Não existe a exigência de retenção prévia para a aquisição de outros ativos de valor, como ouro ou bens de alta liquidez, por exemplo”, destaca. Se a medida avançar, ele avalia ainda que haverá um aumento no custo de liquidez. “Para garantir que o cliente final não seja penalizado pela espera e continue operando em tempo real, as infraestruturas precisarão imobilizar maior capital de giro na operação”, afirma Martins.

Apesar dos ruídos recentes, o setor reconhece os esforços do Banco Central. Renato Lima, CFO e co-founder da Onda Finance, por exemplo, ressalta que a existência de regras mais claras tende aumentar a segurança jurídica do setor e atrair tanto investimentos quanto novos participantes institucionais.

“O desafio regulatório é encontrar um equilíbrio entre mitigar riscos relacionados à prevenção à lavagem de dinheiro, financiamento ao terrorismo e proteção dos usuários, sem comprometer a competitividade do Brasil em um mercado global altamente dinâmico”, afirma Lima.