Doutora em Direito, autora de 'A Vida Afinal: Conversas Difíceis Demais para se Ter em Voz Alta'
6 de setembro de 2020
Leandro: "Colocamos a bomba de morfina. Suspendemos a diálise. Agora é esperar a natureza e seu curso natural. Aquele livro ajudou taaanto.
Estou bem, de modo geral. É tudo muito confuso. Logo cedo ele falou pra minha mãe que precisava falar comigo e pedir desculpas pela forma como me tratou e pelas coisas que me disse quando soube que eu era gay. Que ele se arrepende muito e que me ama e ama meu marido e que nossa vida é maravilhosa e eu sou uma pessoa maravilhosa e um ótimo filho."
Cynthia: "Estou com os olhos cheios de água, mas com o coração quentinho.
Apesar de tudo, a doença é uma oportunidade. De concluir sentimentos e etapas, de despedida. Muita gente pensa que quer partir sem sofrer, sem dor, sem aviso prévio, mas é uma chance que temos de viver —ainda e por quanto tempo tiver que ser. Estou com vocês em pensamento. Fico muito feliz que seu pai tenha tanto amor pra te dar e sei que esse amor reverbera pelo resto da sua vida. No fim das contas, é tudo sobre isso. É sobre o amor."
Essa conversa, que tive com meu melhor amigo há quase seis anos, ressoou para sempre naquilo em que eu já pensava tanto: que o fim de vida ainda é vida e pode representar alguns dos momentos mais importantes que alguém vai viver. Quando falo sobre oportunidades de despedidas, costumo dar seu exemplo. Quando dou seu exemplo, escuto histórias de quem guardou arrependimentos até que havia ficado tarde demais para as conversas difíceis.
Sempre quis contar a história do Leandro e do seu pai, Nelson, no Morte sem Tabu. Da coroa de flores que mandei para o velório, mas chegou na sala do morto errado. Da fruta especialmente preparada para atender ao último desejo do seu pai e que acabou indo parar na barriga do genro. Do livro "Mortais", que eu havia dado de presente em 2018, com o bilhete "para a minha poc favorita", gerando uma pequena crise em seu casamento. O livro, em que Atul Gawande fala sobre viver, morrer, envelhecer e cuidar, foi o companheiro do Lê naqueles poucos meses entre os primeiros sintomas de mieloma e o fim.
Não sei por que demoramos até agora. Como as leituras, os textos têm seu momento de acontecer.
Na última semana, cenas da novela "Quem ama cuida" me fizeram ter urgência em rever as nossas conversas de tanto tempo atrás, do sexto mês de pandemia, dos últimos dias em que eu ainda não havia descoberto que logo me tornaria mãe.
Outros tempos. Nem tão outros assim. Na novela das nove, o avô Otoniel (Tony Ramos) pergunta ao neto Maurício (João Victor Gonçalves) se ele vai confessar o desgosto de ser um neto gay. O jovem mente que nunca lhe passou pela cabeça nada assim.
Conheci Tony Ramos no ano passado, encontro de que ele certamente não se lembra, apesar de eu ter reagido de forma constrangedoramente inesquecível. Tony é doce, gentil, grandioso.
Talvez eu nunca mais conseguisse me desprender dessa imagem da sua pessoa se o ator não fosse tão impecável. Otoniel humilha o neto só de olhar. Mau Mau chora no chuveiro. "Todo gay chorou no chuveiro", li em algum lugar. É verdade, Leandro me diz. O único lugar em que se podia chorar em paz. Onde a dor não faz barulho.
"Quando meu pai descobriu, ele disse que venderia tudo que tinha, mas daria um jeito de me curar. Eu comecei a trancar meu armário, porque percebi que mexiam nas minhas coisas. Um dia, cheguei em casa e a porta do armário estava em cima da cama. Meu pai certamente teria me colocado para fora de casa se minha mãe não fosse tão firme".
A lembrança de dor não é apagada pelo pedido de desculpas, por mais forte e bonito que tenha sido. "Eram as últimas respirações, as últimas palavras, enfrentando a dificuldade da máscara de oxigênio. Meu pai teve vários momentos de confusão, de ausência. Mas naquele instante ele estava presente para me fazer sentir amado –e ser perdoado também, mas talvez isso não fosse o mais importante".
Quantos netos e filhos só assumiram a própria sexualidade depois da morte dos avôs e dos pais. Conheço alguns. A intolerância tirou deles a possibilidade de convivência, do amor por quem se é de verdade, e não por quem se precisou fingir ser.
Nelson se arrependia dos absurdos que havia feito o filho escutar na juventude. Era importante que se desculpasse. Mas o amor nunca deixou de estar ali. Conviveram por décadas em suas versões reais.
Em "Quem ama cuida", Otoniel começa a dar sinais de que pode mudar. Não que ele entenda quão errado está; ainda assim, enxerga a decepção nos olhos da neta Adriana (Letícia Colin). Enxerga aquilo que pode perder, se não conseguir se despir do seu preconceito. É por amor ao avô que Maurício não consegue se assumir. É por amor aos netos que o avô possivelmente permitirá que ele se assuma.