500 mil novos militares russos: o que mudaria realmente na guerra da Ucrânia?

500 mil novos militares russos: o que mudaria realmente na guerra da Ucrânia?

Alerta foi lançado pelo presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, que afirmou que Moscovo poderá convocar entre 300 mil e 500 mil militares depois das eleições

Uma eventual mobilização de até 500 mil novos militares russos poderá prolongar a guerra na Ucrânia, mas dificilmente será suficiente para alterar o seu desfecho. Esta é a conclusão de vários analistas ouvidos pela ‘Newsweek’, numa altura em que aumentam as especulações sobre uma nova vaga de recrutamento após as eleições parlamentares russas de setembro.

O alerta foi lançado pelo presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, que afirmou que Moscovo poderá convocar entre 300 mil e 500 mil militares depois das eleições. Segundo a ‘Newsweek’, o portal independente russo ‘Verstka’, que cita fontes próximas do Kremlin, refere que as autoridades estão a estudar diferentes formas de aumentar o efetivo das Forças Armadas, incluindo medidas destinadas a evitar protestos e uma fuga em massa de cidadãos em idade militar.

Apesar dos rumores, o antigo presidente russo Dmitri Medvedev negou que esteja prevista uma nova mobilização, afirmando que cerca de 200 mil voluntários assinaram contratos com as Forças Armadas durante o primeiro semestre deste ano.

A mobilização parcial anunciada por Vladimir Putin em setembro de 2022 nunca foi oficialmente revogada. Desde então, recorda a ‘Newsweek’, o sistema de recrutamento foi sendo mantido e modernizado, com processos mais digitalizados, novas leis para facilitar a convocação de reservistas e maior acesso das autoridades aos dados dos militares e das suas famílias.

Mas será que meio milhão de novos soldados mudaria realmente o rumo da guerra?

Para John Hardie, diretor-adjunto do programa para a Rússia da Foundation for Defense of Democracies, a resposta é não. O especialista considera que uma mobilização desta dimensão permitiria ao Kremlin prolongar a guerra de desgaste, mas dificilmente alteraria o equilíbrio estratégico no terreno.

Segundo o analista, o principal problema da Rússia já não é a falta de efetivos, mas sim a qualidade das tropas. As elevadas baixas sofridas desde 2022, a escassez de oficiais experientes e as dificuldades em equipar novas unidades limitaram significativamente a capacidade das forças russas para conduzir grandes ofensivas.

Também Giorgi Revishvili, analista de defesa ouvido pela ‘Newsweek’, considera que Moscovo dificilmente conseguirá criar novas formações de grande dimensão sem recorrer a uma nova mobilização. Ainda assim, alerta que uma convocação desta escala representaria um desafio acrescido para a Ucrânia, obrigando Kiev a consumir ainda mais recursos humanos e materiais.

Os especialistas sublinham, no entanto, que a Rússia enfrenta igualmente dificuldades para treinar, equipar e comandar centenas de milhares de novos recrutas. Isso poderá traduzir-se num aumento das baixas sem produzir avanços militares decisivos.

Mikhail Khodorkovsky, antigo magnata russo e crítico de Putin atualmente exilado, defende que muitos dos novos recrutas seriam enviados para a frente de combate com pouca ou nenhuma formação, funcionando sobretudo como “escudos humanos” para as unidades profissionais. Na sua opinião, a estratégia aumentaria o número de mortos e feridos, mas não mudaria o resultado da guerra.

A ‘Newsweek’ refere ainda que uma nova mobilização obrigaria o Kremlin a reforçar os controlos nas fronteiras para evitar uma repetição do êxodo registado em 2022, quando centenas de milhares de russos abandonaram o país para escapar ao recrutamento militar. Segundo os analistas, qualquer decisão dependerá, em última análise, da avaliação pessoal de Vladimir Putin sobre a evolução da guerra e da capacidade da Rússia para sustentar um conflito que já entrou no quinto ano.